Consumidor paga preços semelhantes por carnes com diferentes níveis de desmatamento, aponta estudo
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Um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health analisou 2.980 produtos bovinos em cerca de 500 supermercados nas cinco regiões brasileiras. Com dados da iniciativa do Pasto ao Prato, não encontrou evidência de que carnes associadas a mais desmatamento sejam mais baratas, reforçando a importância da transparência e da responsabilidade compartilhada na cadeia.
Carnes bovinas associadas a diferentes pegadas de desmatamento são vendidas por preços semelhantes nos supermercados brasileiros. Esse é o principal resultado de um estudo publicado na The Lancet Planetary Health, que analisou preços de 2.980 produtos em cinco estados. Os resultados mostraram que o desmatamento não explica o preço pago pelo consumidor.
“O nosso estudo mostra que a carne com alto ou baixo nível de desmatamento chega ao consumidor com o mesmo preço. Ou seja, o desmatamento não deixa a carne mais barata”, afirma Jacqueline Tereza da Silva, pesquisadora de pós-doutorado na UCLouvain e líder do estudo.
A pesquisa investigou uma preocupação presente no debate sobre a pecuária: a de que medidas para combater o desmatamento aumentariam os custos de produção e deixariam a carne mais cara. Essa preocupação vem do fato de que produzir carne de forma sustentável requer investimento dos produtores para aumentar a produtividade na área de pastagem atual ao passo que produzir em áreas desmatadas tende a ter baixo custo Se esses custos menores fossem repassados ao consumidor, produtos associados com o desmatamento poderiam, em teoria, ser vendidos por preços menores. O estudo mostrou que isso não acontece.
Os pesquisadores avaliaram preços de 2980 produtos bovinos entre junho de 2022 e agosto de 2023, em cerca de 500 supermercados de Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Acre.
Ao comparar esses produtos e levar em conta outras características que poderiam afetar seus preços, a equipe não encontrou evidência de que a carne associada com o desmatamento seja mais barata para o consumidor.
O tipo de produto e o nível de inspeção sanitária estiveram entre os principais fatores associados ao preço. Produtos com inspeção federal (SIF) apresentaram preços mais altos do que os produtos com inspeção estadual (SIE). A distância entre o frigorífico e o supermercado também esteve associada às diferenças de preço.
Durante as visitas aos supermercados, os pesquisadores registraram os preços e consultaram os selos de inspeção sanitária nas embalagens. O número do carimbo permite identificar a unidade frigorífica que processou cada produto. A partir disso, Jacqueline utilizou dados da iniciativa do Pasto ao Prato para avaliar o risco de desmatamento associado às carnes.
Em seguida, a equipe analisou a relação entre o desmatamento e o preço da carne nos supermercados. A análise levou em conta características como tipo de produto, nível de inspeção sanitária, distância entre frigorífico e loja, monitoramento da cadeia de fornecimento, tamanho do supermercado e diferenças entre bairros.
Os resultados mostram que o preço na prateleira não considera as diferenças de desmatamento associadas aos produtos. “Isso mostra falta de transparênciapara o consumidor, que paga o mesmo preço sem saber os impactos do está comprando”, afirma Jacqueline.
Isso não significa, segundo a pesquisadora, que a carne de menor impacto deva ficar mais cara. “Se a carne produzida com menor impacto ambiental ficar mais cara, isso viraria um luxo para pessoas de maior renda. Queremos que opções sustentáveis estejam disponíveis e sejam acessíveis a todos”, diz Jacqueline.
Jacqueline defende que as embalagens apresentem informações mais claras sobre a procedência e os impactos associados à carne, incluindo sua relação com o desmatamento. Hoje, o carimbo de inspeção sanitária permite identificar a unidade processadora, mas os indicadores socioambientais não aparecem de forma acessível na embalagem.
Para a pesquisadora, ampliar o acesso à informação é importante, mas as escolhas do consumidor também dependem dos produtos oferecidos. “Os supermercados têm a responsabilidade de oferecer carne de menor impacto. Os frigoríficos precisam monitorar seus fornecedores e evitar compras associadas ao desmatamento. Ao poder público cabe fiscalizar o cumprimento da legislação ambiental, para que quem descumpre a lei não concorra nas mesmas condições que quem a respeita”, afirma.
No Brasil, o aplicativo da iniciativa do Pasto ao Prato ajuda o consumidor a conhecer melhor a carne disponível nos supermercados. Ao escanear o código de barras ou inserir o número do carimbo de inspeção sanitária, é possível consultar indicadores socioambientais associados à sua cadeia de fornecimento. Essas informações tornam mais visíveis os riscos relacionados com a produção da carne, e nos ajudam a agir para incentivar práticas mais sustentáveis.
Sobre o estudo
Deforestation and retail prices of Brazilian beef: a preregistered product-level econometric analysis
Autores: Jacqueline Tereza da Silva, Valentin Guye, Aline Martins de Carvalho, Andrea Garcia, Federico Cammelli, Dominic Moran, Rafael de Oliveira Silva e Erasmus zu Ermgassen.
Revista e ano: The Lancet Planetary Health, 2026.
Artigo completo: Acesse a publicação.
Instituições dos autores: University of Edinburgh (Jacqueline Tereza da Silva, Dominic Moran e Rafael de Oliveira Silva); UCLouvain (Jacqueline Tereza da Silva, Valentin Guye, Andrea Garcia e Erasmus zu Ermgassen); PhD Centre d’Économie de l’Environnement de Montpellier — CEE-M, INRAE (Valentin Guye); Universidade de São Paulo (Aline Martins de Carvalho); e University of Cambridge (Federico Cammelli).
Financiamento informado no artigo: Norway’s International Climate and Forest Initiative; Fonds de la Recherche Scientifique; European Research Council.
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